Morreu Jane Di Castro, artista travesti pioneira na cultura, aos 73 anos, após enfrentar luta contra o câncer, nesta sexta-feira (23), no Rio, apurou o Blog do Arcanjo. Ícone das artes, ela integrou uma geração de artistas que abriram caminho para a representatividade trans e travesti no mundo do entretenimento.

Amiga de décadas de Jane Di Castro, Eloína dos Leopardos, também atriz travesti pioneira, lamentou a partida da amiga ao postar uma foto em sua companhia e do estilista Walério Araújo. "Notícia péssima, acabei de receber! Minha melhor amiga, Jane Di Castro, nos deixou!".

Admirada e respeitada pelo público e pela crítica, a atriz está no ar na Globo na reprise da novela A Força do Querer, de Gloria Perez. Na trama, Jane interpreta ela mesma, ídolo de Nonato, personagem de Silvero Pereira.

No último dia 14 de outubro, Jane escreveu em suas redes sociais: "Amo ter feito essa novela, obrigada Gloria Perez".

Ter sido convidada a atuar em uma trama do horário nobre foi importante para quebrar preconceitos e estereótipos que artistas trans e travestis ainda sofrem nos dias de hoje.

Em setembro deste ano, já em tratamento, Jane declarou: "Mesmo de cama, me recuperando de uma cirurgia, não posso deixar de assistir à novela que me projetou para o mundo", comentou sobre sua participação no folhetim global.

Jane Di Castro foi ainda uma das estrelas do premiado documentário Divinas Divas, que ganhou o Troféu Barroco na Mostra de Cinema de Tiradentes, dirigido por Leandra Leal, que retratou com perspicácia e poesia a trajetória das travestis pioneiras nos palcos brasileiros.

Em janeiro deste ano, Jane Di Castro esteve em uma noite histórica no Theatro Municipal de São Paulo, no show Divinas Divas, que reuniu as trans e travestis pioneiras da cultura no palco mais emblemático do país. O espetáculo foi uma ação do então diretor do Municipal e atual secretário de Cultura da Cidade de São Paulo, Hugo Possolo.

Na montagem, Jane Di Castro dividiu o icônico palco com Eloína dos Leopardos, Divina Valéria, Camille K, Márcia Dailyn e Divina Núbia, sob direção de Robson Catalunha. Todas foram ovacionadas pelo público que lotou o Municipal em 29 de janeiro, Dia Nacional da Visibilidade Trans.

Jane teve disputado salão de beleza no Rio na década de 1960, onde atendia a nata artística da época.

Logo, passou a brilhar nos palcos cariocas, fazendo temporadas históricas no Teatro Rival, fundado por Américo Leal, pai de Angela Leal e avô de Leandra Leal. Lá, foi colega de nomes como Phedra D. Córdoba, Eloína dos Leopardos e Rogéria.

Em 1981, ela atuou em um marco do teatro brasileiro, o espetáculo Gay Fantasy, dirigido por Bibi Ferreira e que contou no elenco com nomes como Rogéria e Ney Latorraca. A direção de arte da montagem foi assinada pelo lendário carnavalesco Joãozinho Trinta.

Carioca do bairro de Oswaldo Cruz, Jane Di Castro voltou a se encontrar com o amigo Ney Latorraca nos palcos em 2019, em seu espetáculo solo As Canções de Uma Divina Diva, que cumpriu temporada de sucesso de público e de crítica no Espaço dos Satyros na praça Roosevelt, centro de São Paulo. Com a montagem ela celebrou seus 50 anos de carreira.

Dona de trajetória artística irretocável, Jane Di Castro se apresentou nos principais palcos do Brasil e do mundo, incluindo aí o Lincoln Center de Nova York. Ela foi casada por cinco décadas com Otávio Bonfim, que morreu em 2018, vítima do câncer. Após o casamento LGBTQIA+ se tornar um direito legal no Brasil, ela fez questão de oficializar a união em 2014.




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